Humanidades

O último arcanjo beat
Morre aos 101 anos o poeta e editor Lawrence Ferlinghetti, que fez parte da geraça£o de Jack Kerouac e Allen Ginsberg
Por Marcello Rollemberg - 24/02/2021


O poeta e editor norte-americano Lawrence Ferlinghetti, que morreu no dia 22 passado, aos 101 anos osfoto de Christopher Michel/Wikimedia Commons/CC BY-SA 4.0
 
Talvez um dos principais movimentos de contracultura norte-americana na segunda metade do século 20, a chamada Geração Beat cultuou o jazz, acendeu incensos para Buda, bebeu doses industriais de ua­sque barato e tumultuou a face careta da Amanãrica com muita literatura, muita poesia. E muita ousadia. Essa geração tinha sua “santa­ssima trindade”, fundamentada nos nomes ose nas ações osde Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William S. Burroughs, mas também muitos arcanjos, como Neal Cassady, Gregory Corso, Gary Snyder.

E o poeta e editor Lawrence Ferlinghetti, o último remanescente de uma geração ao mesmo tempo genial, iconoclasta, apocala­ptica e niilista, aquele que sobreviveu a s bebedeiras de Kerouac, a s loucuras de Burroughs, a s pirações zen de Ginsberg ose publicou cada palavra que eles criaram no ritmo sincopado do jazz, já que os beatniks acreditavam piamente que suas novas e intensas experiências deveriam ser escritas como notas jazza­sticas, em total improviso, um intenso bebop litera¡rio. No último dia 22, aos 101 anos osfaltando exatos 32 dias para fazer 102 -, Lawrence Ferlinghetti foi vencido “por uma doença pulmonar”, como afirmou seu filho Lorenzo ao anunciar a morte do pai. 

No panteão beat, Ferlinghetti era, certamente, daquela turma mais tranquila ose talvez por isso tenha vivido tanto e tenha sobrevivido aos amigos. Bem diferente daquela outra porção beatnik que queria sempre chegar a  beira do precipa­cio ose, ao chegar la¡, teimava em dar um passo a  frente. Jack Kerouac, por exemplo, autor da obra máxima beatnik, On the road oslivro escrito em três semanas em uma bobina de telex para o autor não perder o fluxo das ideias trocando o papel na ma¡quina de escrever -, morreu de tanto combinar ua­sque com anfetamina.

Já William Burroughs osparente distante de Edgar Rice Burroughs, criador de Tarzan osviajou o mundo praticamente sem ficar sãobrio ou careta um dia sequer. Em umas dessas viagens osnos dois sentidos -, quis “brincar” de Guilherme Tell com a companheira Joan, colocou um copo a tí­tulo de maçã em sua cabea§a e apertou o gatilho do reva³lver. Acertou em cheio a testa da moa§a, matando-a. Allen Ginsberg, que virou cult da geração hippie uma década depois que a sua causou frisson nos Estados Unidos, certa vez foi perguntado, em uma palestra nos arredores de Los Angeles, o que ele queria dizer com “valores nus”. O poeta não se fez de rogado: sua explicação expla­cita foi tirar a roupa e ficar pelado no palco. 

Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William S. Burroughs osFotos: Reprodução
via Wikimedia Commons
 
Nada disso fazia o estilo de Lawrence Ferlinghetti. Mais discreto, ele preferia canalizar sua poesia para um territa³rio que buscava inspiração tanto no surrealismo quanto no existencialismo osa estanãtica filosãofica e cultural que dava as cartas nos anos 1950. Ele escreveu dezenas de livros e sua obra mais conhecida ose um dos livros de poesia mais vendidos de todos os tempos nos Estados Unidos -, A Coney Island of the Mind (que no Brasil foi publicado pela L&PM nos anos 1980 com o tí­tulo de Um Parque de Diversaµes na Cabea§a), da¡ bem a dimensão dessa sua busca poanãtica.

Além disso, Ferlinghetti teve uma longa vida como editor e livreiro, graças a  criação, em 1953, da Livraria e Editora City Lights Books, em San Francisco, na Califa³rnia. Ela foi a primeira livraria “alternativa” dos Estados Unidos e uma das primeiras editoras a publicar, obviamente, os beats. Foi pela City Lights que Ginsberg publicou seu monumental poema-manifesto Uivo. Com palavraµes, remissaµes a sexo gay e um ataque a  sociedade bem-comportada americana, o poema foi rapidamente censurado na primeira impressão, em 1956. Isso não impediu, no entanto, que um ano depois a editora fizesse uma nova tiragem, e Ferlinghetti e o gerente da City Lights acabaram presos sob acusações de obscenidade. Foram absolvidos. Mas, ao invanãs de arrefecer o movimento beat, essas ações do establishment americano são chamaram ainda mais a atenção para aqueles jovens que adoravam Charlie Parker e um péna estrada.

Hipsters e squares

Ao longo de quase 70 anos, Lawrence Ferlinghetti soube atravessar todas as ondas contraculturais e conservadoras que varreram seupaís, sempre como um “defensor incansa¡vel da liberdade de expressão”, como afirma o comunicado sobre sua morte. E era mesmo. A City Lights, inclusive, virou a meca de peregrinação de artistas descolados, poetas undergrounds e pola­ticos progressistas. E continuou, por todos esses anos, a “publicar o impublica¡vel”, como dizia seu criador.

Muitos desses neoperegrinos, com certeza, não devem nem desconfiar sobre a origem da palavra osou expressão osque da¡ nome a um dos mais instigantes movimentos contraculturais das últimas cinco décadas. “Geração Beat” éum termo que muitos repetem osalguns em tom jocoso, éverdade, já que o movimento estãolonge de ser uma unanimidade -, mas poucos conhecem a origem. Então, vamos la¡, são a tí­tulo de esclarecimento. 

Lawrence Ferlinghetti lendo poesia na City Lights Books, sua livraria em
San Francisco, na Califa³rnia, Estados Unidos osFoto: voxtheory
via Wikimedia Commons/CC BY-SA 2.0

Segundo o escritor Leonardo Fra³es, em ensaio no livro Alma Beat (L&PM Editores, 1984), “o termo beat, para Jack Kerouac, não se ligava ao verbo homa³grafo, traduza­vel por bater e conexos, mas queria dizer beatitude. Já o termo beatnik, que acabou virando um ra³tulo para qualquer boaªmio estranho, foi invenção de um jornalista osHerb Caen, do Chronicle de San Francisco osquando a maréde rebeldia ganhou Espaços na imprensa. O Sputnik russo acabara de ser lana§ado ao espaço e On the Road era, a essa altura, finalmente um best-seller tremendo”. 

A Geração Beat também acabou sendo a responsável osdireta ou indiretamente ospela criação de dois termos que estão, de várias formas, por aa­ atéhoje. Ao se posicionarem contra a porção conservadora e “quadrada” ossquare osda sociedade americana osjustamente em um período em que a “caça a s bruxas” do macartismo dava as cartas -, eles acabaram sendo vistos como hipsters, o avesso daqueles primeiros.

Segundo Herbert Gold, um beatnik de menor expressão mas igualmente criativo, hipster seria “um tipo de jovem descolado que estava então na moda, assim como uma geladeira pifando que funciona com barulho, calor e incra­vel violência apenas para cumprir sua finalidade, que émanter-se fria”. A expressão, em seu diminutivo, acabou servindo para designar uma nova geração de descolados da contracultura, que vagam por aa­ atéhoje: os hippies.

Herdeiro de toda essa história, o poeta, editor e escritor Ferlinghetti continuou a trabalhar, sem pensar muito que o tempo estava passando. Quando completou um século de vida, comemorou publicando mais um livro, o pequeno romance intitulado Little Boy. “Little Boy énormal atéa pa¡gina 25, em que o escritor narra sua infa¢ncia misera¡vel, último de uma familia numerosa dado para criar pela ma£e, o crescimento numa mansão em Nova York, onde a tia era governanta, e depois uma esticada para um bairro mais pobre, acolhido por uma viaºva. ‘Solida£o era a palavra’, ele escreve. Algumas pa¡ginas adiante, e a imaginação de Ferlinghetti destrambelha, a pontuação enlouquece, como se fosse empurrada pela pressa de narrar. Os fatos são expostos com humor, poesia e muita sabedoria, destilada em um século de vida. a‰ quando o poeta aparece em plena forma. E, como se não bastasse, com uma história para contar”, analisou o escritor e jornalista Cada£o Volpato para a revista GQ Brasil quando o livro foi publicado.

Little Boy não tem previsão de lana§amento no Brasil e, na anãpoca, seu autor foi taxativo ao ser perguntado se a obra era um livro de memórias. “Mema³rias são para damas vitorianas”, disse em uma entrevista. Atéporque, se fosse para escrever uma autobiografia, Lawrence Ferlinghetti já o teria feito, em seu longo e belo poema justamente chamado Autobiografia. Nele, o poeta se expaµe e se revela, como neste trecho:

Eu sou o homem.

Eu estava la¡. 

Eu sofri

um pouco.

Eu já sentei numa cadeira de balana§o de aa§o.

Sou uma la¡grima do sol.

Eu inventei o alfabeto

depois de olhar o voo das gara§as

que faziam letras com as pernas.

Eu sou um lago na plana­cie.

Uma palavra

numa a¡rvore.

Eu sou uma montanha de poesia.

Sou uma blitz

no inarticulado.

Sonhei

que meus dentes caa­ram

mas minha la­ngua viveu 

para contar a história.

Porque eu sou uma pausa

de poesia.

Eu sou um banco de canções.

Sou o pianista

de um cassino abandonado

a  beira-mar

numa neblina muito espessa

mas que mesmo assim continua a tocar

 

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